O escritor José Saramago, de 87 anos, que hoje iniciou de autocarro o percurso de Salomão no seu livro “Viagem do Elefante”, afirmou em Constância que foi “a visão das patas cortadas do elefante a servir de bengaleiro” que o levaram a escrever este livro.
A obra, passada no século XVI e escrita em 2008, dez anos após a atribuição do prémio Nobel, ficciona a oferta do rei D. João III a seu primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria: um elefante que se encontrava em Belém, vindo da Índia.
Segundo disse Saramago à agência Lusa, “não foi a viagem a Viena que me fez escrever este livro mas saber que, depois de morto, lhe cortaram as patas para bengaleiro”. “Isso não se faz a um elefante que fez uma viagem épica”.
O Nobel português afirmou que a história e as duas aldeias mencionadas “são produto da imaginação” pelo que “esta viagem e o itinerário que hoje iniciamos não corresponde a uma factualidade, embora também o pudesse ter sido”.
O périplo de dois dias, sob organização da Fundação Saramago e composta por “amigos da Fundação e de Salomão”, e alguns jornalistas portugueses e espanhóis, principiou hoje em Belém, Lisboa, “pela rota portuguesa de Salomão”, com uma primeira paragem em Constância, por “vontade expressa” do escritor, rumo à fronteira portuguesa em Figueira de Castelo Rodrigo, onde pernoitará.
Recebido no salão Nobre dos Paços do Concelho, José Saramago relembrou antigas estadas na “formosa Constância de Camões, as passeatas pela margens do rio, o anfiteatro ribeirinho, as casas das encostas, a Igreja Matriz do cimo do monte e as escadinhas do ‘tem-te bem’, tendo ainda feito a leitura em voz alta de um excerto do livro ‘Viagem a Portugal’, relativo à “Vila-Poema”.
Pilar del Rio, esposa de Saramago, afirmou à Lusa que o escritor estava “entusiasmadíssimo” com a iniciativa dos membros da Fundação e que estava “decidido a ver tudo o que se faz e se tem feito em Constância que se relacione com a vida e obra de Camões”, como a Casa Memória de Camões e o Jardim Horto Camoniano.
Visívelmente debilitado, José Saramago, que seguirá quinta-feira na rota da “Viagem do Elefante”, com destino a Valladolid, deixou aos presentes um apelo gracejado no sentido do exercício da leitura, tendo afirmado que esta se configura como “um contributo para o bem-estar físico e, essencialmente, mental”.
“Leiam, porque ler faz bem à saúde. Não cura constipações ou outras maleitas mas, pelo menos, faz bem à saúde mental, sei que faz”, afirmou.






